A culpa é dos Direitos Humanos

Por Leandro Uchoas

Estava eu indo jogar bola, dirigindo meu carro, com quatro companheiros de pelada. O assunto era a senhora que foi esfaqueada na frente da filha de sete anos, no Estácio. Estavam todos indignados. Nesses momentos, quando não estou junto da minha tribozinha progressista, costumo pensar: “vão falar o que eu não quero ouvir”. Dito e feito. Um colega veio com o famoso bordão do senso comum: “Sabe por que isso acontece, parceiro? A culpa é dessas pessoas dos Direitos Humanos”. Bom, como eu faço parte das pessoas que acham incrível seres humanos serem contra os direitos humanos, eu reagi rapidamente, com educação. “Amigo, a culpa do crime é do criminoso, e das pessoas e estruturas que o deseducaram. Os direitos humanos apenas defendem os direitos de seres humanos. Eu mesmo sou militante dos direitos humanos”. Silêncio no carro.

Ele e os outros colegas passaram a argumentar melhor, passaram a dizer que respeitavam os direitos humanos, mas que esse assassino tinha mesmo é que morrer. E quem sou eu para dizer que não tinha? Nessas horas, a gente tem que respeitar a dor das pessoas, a indignação natural. Mas eu segui a conversa, pontuando minhas opiniões aqui e ali. O mesmo colega veio com outro bordão: “bandido bom é bandido morto”. Nessas horas eu escolho responder assim: “eu te entendo, mas eu sou seguidor de Jesus, e Ele disse que ninguém merece ser morto”. Até que o mesmo colega me ofereceu o cheque mate quando eu perguntei se ele conhecia uma cadeia. “Meu pai passou a vida inteira na cadeia…” Era o meu momento. Eu disse: “você queria que tivessem matado seu pai na cadeia?” Ele disse que não. “Fomos nós, e os direitos humanos, que salvamos seu pai da morte”. Silêncio no carro.

Na volta do futebol, fiz questão de levar todos na porta de casa, para provar que não havia rancor. Mudei a maneira deles de pensar? Talvez ainda não. Mas deixei ali uma sementinha que pode ou não germinar, como qualquer semente. A pergunta que faço é a seguinte: o que teriam feito 80% das pessoas de esquerda? Sabe o que teriam feito? Infelizmente, teriam xingado o rapaz de “fascista”, e depois teriam voltado a viver em sua tribozinha de esquerda… Amigos, não há construção de outro mundo sem um combate diário ao senso comum, uma luta no campo das ideias. E isso jamais significa combater as pessoas, mas sim desconstruir as suas falsas certezas.

Hoje também é dia de luta. Assim como será amanhã, e durante toda essa semana. E também na outra. Sigamos.

Foto: Presidiários fazendo a prova do Enem (Jeso Carneiro)