Cântico de amor ao amigo peregrino

Sinto gosto de lágrima no canto da boca. Guiado por seus sonhos teimosos, o meu amigo Bruno está indo embora com a brisa do fim de tarde. Esta semana, ele deixa nosso lar. E deixou dentro de mim um vazio imenso, que não me lembro de já ter sentido. E porque tudo na vida pode ser útil, quero transformar essa doce e pequenina dor que sinto em palavras de carinho e gratidão.

Professor, ator e palhaço, o meu amigo surgiu em minha vida há quatro anos, trazido por algum anjo que preferiu o anonimato. Foi a utopia por educação libertadora que uniu nossos caminhos. Encantei-me com sua doçura e sensatez desde o primeiro dia. Suas palavras, seu silêncio, seu afeto e sua imensa alegria foram o tempero mais forte de minha vida, nestes últimos difíceis anos.

Juntos, discutimos com paixão o nosso país, e elaboramos os mais loucos e transgressores projetos. Juntos, corremos o Brasil com ternura, ensinamo-nos um ao outro enlouquecidas lições, crescemos internamente, e trocamos muito: sonhos, planos, ideias, percepções, dores, paixões, alegrias e luz. Muita luz.

O meu amigo tem a alegria do mais doce palhaço, e tem um sorriso que engole o mundo como o canto do galo engole a manhã. Sua companhia, dividindo a casa e a vida, foi uma dádiva que mereci apenas por misericórdia de Deus.

Vou confessar uma coisa. Eu torço muito pelo meu amigo, porque sei que seu novo caminho também é de luz. Desde já, encanta-me os amigos que ele conquistará como um marinheiro que aporta no novo destino. Desde já, vivo com ele as alegrias que levará, com sua arte bela, para os pobres e desgraçados do meu país, este pedaço de chão que tanto amo.

Para simbolizar sua existência, hoje eu comprei uma flor. É uma linda flor. Ela foi alojada cuidadosamente no mais colorido canto da casa, simbolizando o meu amigo tão amado. E todas as vezes que eu olhar pra ela, vou me lembrar das manhãs que começamos cada novo dia, com seus deliciosos desafios.

Embora saiba que ele brilhará como um diamante nas terras de lá, eu sinto que um dia ele vai tomar a estrada de volta. E quando eu vir repousar, junto à porta, sua exuberante mala de palhaço, eu lhe darei o abraço intenso que só aprenderam a dar os grandes irmãos. E então faremos novamente das noites, um lindo luau – e dos dias, um constante carnaval.

Enquanto isso não acontece, quero conseguir vê-lo nas brincadeiras de criança, nas ruas, e ouvi-lo nas músicas ternas de ukulelê. Quero senti-lo nos atos de rua, e percebê-lo comigo nas noites de pensamentos bonitos. Quero que, estando lá, esteja aqui em nossa casa. Todos os dias. Para sempre.

Assim, seguirei eu em minhas travessuras profissionais, em minha estranha e interessante maneira de improvisar a vida. Desnecessário dizer que, em tudo o que eu fizer, haverá a presença do meu amigo, soberana como a lua, inesquecível como as paixões.

Para simbolizar meu amigo, comprei hoje uma linda flor.

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