Eike Sacanagem

Por Leandro Uchoas

Queria contar mais uma historinha envolvendo o Eike. Em 2009 fui a Campos dos Goytacazes (RJ) para fazer uma reportagem sobre trabalho escravo – a cidade era recordista nacional em escravizar pessoas… Em seguida, dei um jeito de viajar até São João da Barra (RJ), que é mais ou menos perto, para investigar eventuais impactos socioambientais do Porto do Açu – aclamado projeto de Eike Batista que seria “o maior porto privado do mundo”.

Nem lembro como cheguei ao 5º distrito, região rural isolada do município. Mas cheguei. E fui tentando conversar com as pessoas sobre o projeto – já intuindo que a vida delas estava sendo destruída pelo megaempreendimento. Até que cheguei em um cidadão chamado Rodrigo, que ficou enfurecido – ele achou que eu era algum X-9 da empresa, e partiu pra cima. Claro que eu disse que era jornalista, mas isso só agravou a situação, devido à má reputação que meus colegas de profissão construíram entre pessoas impactadas por grandes empreendimentos.

Até que ele pesquisou no gúgou sobre meu trabalho, e gostou do que leu. Imediatamente ele chamou os vizinhos para me falar dos impactos. Todos vieram. E aí se deu essa reunião improvisada da foto, com aquelas declarações simplórias de velhos agricultores fofos e humildes, sobre a desgraça que o porto estava levando às suas lavouras. Ao final, eu quis saber onde tinha um hotelzinho pra dormir, e eles riram de mim.

A região era rural, e não havia nenhum hotel. Jota (boné vermelho) me convidou para dormir em sua pobre habitação, em uma “cama” de palha improvisada. A casa era muito humilde, mas ele e sua jovem esposa estavam eufóricos com o nascimento do pequeno filho, e aquela atmosfera de amor me contagiou. Dormi feliz no chão, mesmo duro.

No dia seguinte, entrevistei a comunidade inteira, e tirei várias fotos. Descobri até um cara que fez um buraco no chão e encontrou gás natural – uma chama de fogo ficou escapando do buraco durante mais de ano! Estava claro, portanto, que o interesse de Eike naquelas terras não era por acaso… Basta lembrar que o pai de Eike, Eliezer Batista, aliado da ditadura, tinha o mapeamento de riquezas minerais de todo o território nacional…

A lembrança mais gostosa foi uma aventura que empreendemos no final da tarde daquele sábado. Um deles – não vou contar quem, para preservar – me convidou para entrar dentro das instalações, por um local escondido. Assim fizemos, e entramos lá com sua moto, percorrendo o terreno todo e tirando várias fotos. Evidentemente, mal posso calcular os riscos dessa iniciativa, porque a “segurança” do empreendimento tinha vínculos conhecidos com os jagunços regionais, os mesmos que ainda escravizavam pessoas em pleno século XXI.

Enfim, apesar dos impactos na vida daquela gente pobre e bonita, tenho boas lembranças desses dias. E acima de tudo, tenho muito orgulho de ter estado do lado certo da barricada desde o início, ao contrário de alguns de meus colegas de profissão, que tantas vezes lamberam as botas de Eike e Cabral.