Gandhi tornou-se inevitável

Por Lia Diskin*

Ainda não finalizamos a primeira década deste 3º milênio e já carregamos as marcas de duas datas que, como espadas de Demócles, ameaçam o potencial afetivo e de criatividade que caracteriza o humano. Referimo-nos ao dia 11 de setembro de 2001, quando a perplexidade tomou conta de todos nós frente ao horror de verificar que o terrorismo adquiriu uma sofisticação técnica e uma eficiência jamais imaginadas. A outra data é o dia 2 de fevereiro de 2007, quando o Painel Inter-governamental sobre Mudanças Climáticas lançou em Paris o relatório elaborado por cientistas do mundo inteiro evidenciando, de maneira incontestável, que a ação humana é a responsável pelo aquecimento global e desequilíbrio do ecossistema planetário, cujo colapso pode inviabilizar a sobrevivência não só da nossa espécie como da Vida na Terra.

Nenhuma dessas marcas é fruto de calamidades desencadeadas por forças cósmicas ou naturais. Elas são produto e efeito das nossas escolhas historicamente reproduzidas e de modalidades culturais que adjudicam a si próprias uma superioridade sobre as outras, dessa maneira naturalizando e legitimando o recurso à violência e a ganância. Não há como continuar a ignorar isto, nem há justificativas para persistir no ato de alimentar um modelo civilizatório claramente suicida. Hoje a mudança não é mais uma escolha. É uma necessidade, uma exigência ― Gandhi tornou-se inevitável.

Na longa trajetória de reformador social e político, o Mahatma testou princípios e estratégias, entre os quais encontramos um tríptico cuja arquitetura ainda aguarda para ser implementada em sua integridade sistêmica. Trata-se de satyagraha, sarvodaya e ahimsa, que nos dias de hoje podemos traduzir por transparência estrutural, economia solidária e direitos humanos.

Sobre este tripé pode erguer-se o fundamento da tão buscada sustentabilidade, que nos leva a revisitar modelos mentais, avaliar crenças e pressupostos que deram ao nosso conhecimento a prerrogativa de querer submeter a Realidade às nossas demandas.

Quando Gandhi identificava Deus com a Verdade deixava claro que há uma dimensão na Realidade que escapa à nossa compreensão ― estamos imersos em um pluriverso de Vida cujos desígnios desconhecemos. Isso, por si só, deveria tornar-nos humildes e reverentes frente a qualquer manifestação que essa Vida adquire. A interdependência como princípio de organização biológica impregna todas as dimensões do nosso ser, portanto, não vivemos, convivemos. Não existimos, coexistimos. É isto o que Gandhi assinala quando afirma: “Tudo que vive é o teu próximo”.

Neste 60º aniversário da sua morte, o melhor tributo que podemos render-lhe é debruçarmo-nos sobre sua vida e seus escritos ― milhares de páginas em livros, periódicos, documentos e panfletos ― onde há pistas visionárias com as quais desenhar programas de educação universal e de ação inovadora. A vitalidade e atualidade de suas ideias são as alavancas para uma mudança de paradigma, cuja implementação demanda a participação de todos os setores da sociedade em coordenação de redes co-responsáveis que harmonizem autonomia e interdependência, liberdade e solidariedade, necessidades sociais e materiais, identidade cultural e cidadania planetária.

A Realidade se impõe, e o convite já foi feito: “Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”.

(*) Co-fundadora da Associação Palas Athena.