Meus cartões de aniversário

Por Leandro Uchoas

Cartões – Primeira Parte

Vou contar uma história que me emociona, que quase todo mundo já conhece. Corria o ano de 2005, e eu era estudante de jornalismo na elegante cidade de Florianópolis. Aproximava-se meu aniversário de 29 anos, e eu vivia o que a astrologia chama de “retorno de saturno”. Comecei a questionar muito como os aniversários acontecem. Então, decidi inverter a lógica dos aniversários, de forma a ir na contramão do consumismo e do estímulo à vaidade.

Foi então que decidi, no meu aniversário, passar a dar presentes ao invés de receber. Escolhi meus melhores amigos na época, e dei presentes simples pra eles. Decidi, também, escrever cartões para TODOS os meus amigos. Foi aí que começou essa belíssima história de resgatar todos os meus amigos, ao longo da minha vida, e dar cartões a todos. Foi lindo!

Cada cartão relatava, e ainda relata, a importância daquela pessoa para minha trajetória. Pessoas que eu não via há 10 anos, 15 anos, de repente se depararam com cartões meus chegando pelo correio. Emocionante! Várias surpresas em relação à minha avaliação pessoal – porque os cartões tinham qualidades e defeitos das pessoas. Isso gerou conversas das mais ricas, e inúmeras outras histórias (abaixo, a mais emocionante).

Até hoje, nos meus aniversários, escrevi 944 cartões, para 944 amigos. Tenho todos eles guardados no computador, e frequentemente os releio, apenas para relembrar uma pessoa de quem tenho saudade. Esse ano não vou escrever, porque estou sem tempo livre nenhum, nem em finais de semana. Mas já estou anotando quem está sem cartão, e vai receber um dia. Prometo fazer uma festa quando chegar ao cartão número 1000, o que deve acontecer em breve.
Quem quiser que eu divulgue o texto que escrevi, é só falar (só divulgaria as qualidades, por óbvio). Esta minha iniciativa, moldada em um momento de desapego, acabou por gerar muita alegria pra mim, muita energia positiva direcionada mentalmente pra mim. É uma delícia tão grande que vocês não imaginam como é bom.

 

Cartões – Segunda Parte

No ano seguinte ao início desse processo, em 2006, eu iria fazer 30 anos. Então, para celebrar a data redonda, eu decidi fazer uma viagem por cidades onde já tinha vivido, ou em que tinha muitos amigos. Fui a Rio de Janeiro (RJ), Volta Redonda (RJ), Itajubá (MG), São José dos Campos (SP), Campinas (SP), São Paulo (SP) e Florianópolis (SC). Houve outros lugares onde vivi, até em outros países, mas escolhi apenas os mais fáceis.

A viagem durou 10 dias. Iniciou onde minha vida começou, Volta Redonda, e terminou onde eu vivia na época, Floripa. Em cada um destes lugares, fui reencontrando pessoas que tinha recebido, no ano anterior, o meu cartão pelo correio. Então, em todas elas havia cenas gostosas de reencontro. Até porque, fiz questão de revisitar lugares frequentados por mim no passado. Então, a viagem foi uma espécie de visita à minha história pessoal. Foi uma linda viagem.

Faltou contar uma coisa. Dos cartões que escrevi, um deles se direcionava a alguém que ainda não tinha nascido – meu sobrinho Caio, hoje com 11 anos. E um dos cartões se direcionava a uma pessoa que já havia morrido – minha avó Luíza, falecida em 1989. Era uma vó muito presente e amorosa, cuja lembrança até hoje nos emociona a todos. Quando ela contraiu câncer, nunca desistiu da vida. Então, como eu era católico, ela me dizia: “meu filho, quando eu ficar boa, nós vamos juntos a Aparecida do Norte agradecer a Nossa Senhora pela minha cura”. Mas eu sabia que ela não mais ficaria boa.

Então, 17 anos após sua morte, eu peguei o cartão que escrevi a ela e, nessa viagem, eu o levei até Aparecida do Norte. Já não sou mais católico, mas me emocionei muito ao entrar naquele templo enorme. Lá, em algum local, eu deixei o cartão que escrevi pra ela, o mais curto que já escrevi. Nele, eu dizia apenas: “Vó Luíza, a gente disse que viria a Aparecida. E a gente veio! Obrigado por ter feito de mim isso que me tornei”. Foi muito emocionante. A viagem prosseguiu, e dias depois, antes de chegar a Florianópolis, resolvi conhecer Nova Trento, onde existe um templo para Madre Paulina, a primeira santa brasileira. Lá rezei fortemente pra ela, e senti sua presença ao meu lado de uma forma nunca antes sentida. Um dia, tenho esperança, haveremos de nos reencontrar, em algum lugar incrível deste Cosmos infinito.