Trago boas notícias

Por Leandro Uchoas

Esse não é mais um engenhoso texto pessimista sobre o drama que se vive hoje, no Brasil e no planeta. Para isso, muito se tem escrito – e temo que essa ampla produção apenas reafirme o desânimo e a desesperança quanto ao futuro.

Aos trancos e barrancos, estamos chegando a 2018, e eu sei que não tem sido fácil. Não é meu objetivo negar. Como tem sido recorrente nos últimos tempos, o ano de 2017 não deixou uma boa imagem. Para onde olhamos, parece que as más notícias se avolumam como não imaginávamos antes. É uma sensação recorrente, eu sei. O Brasil vive uma crise social, econômica, política, ambiental, moral e ética, que é grave em todos estes aspectos. E no mundo não é diferente. Meu objetivo, aqui, não é fechar os olhos para isso.

Pois sim, é em meio a esse cenário de trevas que quero trazer boas notícias – e ouso anunciar que elas não são poucas. Mas não quero, em hipótese alguma, que essas boas novas fragilizem a indignação que temos e devemos manter contra esse quadro de horrores que se anuncia, que precisa ser transmutado e superado. Que a indignação e o desejo de mudança permaneçam, e sigam a cada dia mais fortes. São a energia que nos fará – e estou certo de que fará – transformar essa sociedade em falência numa humanidade de paz, onde serão fartos terra, trabalho e pão.

Ouso dizer que hoje, existe mais gente fazendo o bem do que já houve em toda a história da humanidade. Sim, você não leu errado. E isso, por óbvio, não é pouca coisa. É que o bem nem sempre é notícia. Nunca houve tantos projetos e ideias inovadores e bem-intencionados como agora. Nunca houve tanto projeto social de fôlego. Nunca houve tantas alternativas para os que sofrem. Nunca houve tanto experimento social de construção de outro modelo civilizatório.

Ouso anunciar, portanto, que este mundo está mesmo grávido de outro. Afirmo, com convicção, que escondida por trás das guerras, das desigualdades, das intolerâncias, das injustiças e de toda espécie de dor, já existe uma nova humanidade em teste. Por isso, nessa passagem de ano, quero lembrar que os inventores do amanhã existem, e são muitos, e que colorem as ruas do mundo, historicamente manchadas de sangue, com as cores da esperança, do amor e da liberdade.

Ainda nos veremos tomados pelo desânimo. Muitas vezes, neste ano e no próximo, a desesperança vai bater à nossa porta, sentar à nossa mesa, e nos envolver por completo. Em todos esses momentos, sugiro que lembremos do mundo que virá, que mantenhamos nossos sonhos vivos e nossos planos sólidos. E que o façamos com vigor e fé.

O ano de 2018 começa com incontáveis sonhadores, inventores de planos novos, espalhados pelo mundo. Estão ainda fracos perante os tiranos, e ainda são invisíveis diante dos vaidosos. Mas existem. E são muitos. Tenho andado muito por aí, pelas esquinas menos famosas do Brasil e do mundo, e tenho conhecido projetos lindos, pessoas maravilhosas. Não tenho dúvida de que o amanhã já começou.

Deixo aqui listados, em ousados itens de esperança, como será o mundo que substituirá esta explosão de conflitos vivenciada hoje. Falo do amanhã dourado, que já habita os recantos da Terra, em subúrbios, garagens e porões.

1. Na humanidade de amanhã, as pessoas não mais correrão pelas ruas, atônitas, escravas de seu relógio. Antes, correrão por parques e praças, para abraçar-se, para rir, para cantar, para dançar e para contar histórias.

2. Os povos não mais se dividirão em rabiscos imaginários, quando a palavra “fronteira” perder significado e deixar de existir. E então as guerras serão feitas apenas de travesseiro, e só haverá exército se for feito de poetas e cantores.

3. Os homens se preocuparão muito com a cor dos prédios, das avenidas, dos campos, das praças, dos chafarizes e nunca mais se preocuparão com a cor da pele.

4. O amor será considerado a virtude mais elevada, e gerações duvidarão que um dia, em algum tempo distante, alguém já foi discriminado por amar uma outra pessoa de mesmo gênero.

5. As contas a pagar, os sobrenomes e os cargos não se tornarão mais importantes do que a amizade, a partilha, a arte, o vento, o sol e a lua. Nunca mais.

6. A vida terá mais de feminino, mais de boemia, mais de vagabundagem, mais de poesia, mais de loucura, mais de sensibilidade. E se decretará, em lei, que todo encontro ou reencontro, mas todo mesmo, deve ser como um caloroso abraço.

7. Os homens da Política não mais almejarão a fortuna, enganosa, ou o poder, passageiro. E os cidadãos comuns entenderão que de seu voto depende a sanidade da Política. Afinal, virar as costas para o problema é ser conivente com ele.

8. A crise ambiental será resolvida com a única solução possível: a mudança radical do modo de se organizar a vida no planeta.

9. Os jovens só se entregarão a alguns poucos vícios: gargalhar, dar cambalhota, sambar e caminhar assobiando.

10. Todos os religiosos do mundo se darão as mãos e formarão uma grande roda, e nesse instante decidirão substituir toda religião por pura e simples espiritualidade.

Tenho certeza que isso não é apenas registro utópico de um sonhador. Em gestação, esse mundo já existe. Sei que não sairá das garagens e porões em 2018, mas seguirá sendo gestado. Considero importante pedir a todas e todos que lembrem-se dele nos piores dias do próximo ano, que trabalhem por ele, que não esqueçam de que não estão sozinhos, e que não deixem o desânimo da dor de hoje afogar o êxtase de amanhã. Feliz ano novo!